Um cartaz pode estar perfeito no ecrã e chegar da gráfica com o texto cortado, a cor desmaiada ou o logótipo aos quadradinhos. Nesses casos, o problema não está no design: está no ficheiro que seguiu para a máquina. Este guia explica o que separa uma coisa da outra e termina com a checklist que usamos antes de cada impressão.

O que é uma arte final, e porque não é o mesmo que o design aprovado

O design aprovado é uma imagem: mostra como a peça vai ficar. A arte final é outra coisa. É o ficheiro preparado para ser produzido, com tudo o que a máquina e o acabamento precisam de saber: o formato exato, a área que vai ser cortada, as cores no modo certo, as imagens com qualidade suficiente para o tamanho real e as fontes resolvidas.

Pense na diferença entre a fotografia de um bolo e a receita. A fotografia convence; a receita é o que permite fazê-lo igual. Um ficheiro que parece bem no ecrã pode esconder problemas que só aparecem no papel: uma imagem pequena e nítida no monitor que, ampliada para um cartaz, perde a definição; um texto encostado à margem que o corte vai comer; um azul que só existe em ecrãs.

É por isso que verificamos sempre os ficheiros antes de imprimir, mesmo quando é o cliente a enviá-los, e avisamos se houver algum problema. Não é desconfiança. É o último momento em que corrigir ainda é simples.

Um ficheiro de impressão não é uma imagem. É uma instrução.

Sangrias, margens de segurança e marcas de corte

As folhas são impressas maiores do que o formato final e depois cortadas. Por muito rigorosa que seja a guilhotina, o corte não cai exatamente no mesmo sítio em todas as folhas de uma tiragem: há sempre uma pequena variação. Daí nascem duas regras.

A primeira é a sangria. Tudo o que deve chegar à borda, como uma cor de fundo ou uma fotografia, tem de ultrapassar a linha de corte. Se o fundo acabar exatamente no limite, qualquer desvio deixa um fio branco num dos lados. A segunda é a margem de segurança. O que não pode ser cortado, como o texto, o logótipo ou um número de telefone, tem de ficar afastado da borda, para dentro.

As marcas de corte são as pequenas linhas fora da página que indicam onde a lâmina vai passar. A medida da sangria e da margem depende do formato, do papel e do acabamento, por isso não há um valor que sirva para tudo: pergunte-nos a medida para o seu trabalho. O importante é saber que existem e prever espaço para elas desde o início do design, e não no fim.

Cor: do RGB do ecrã ao CMYK e às cores diretas

Um ecrã cria cor com luz: vermelho, verde e azul (RGB), somados até ao branco. Uma máquina de impressão cria cor com tinta sobre papel: ciano, magenta, amarelo e preto (CMYK), que absorvem luz em vez de a emitir. Há cores que o ecrã consegue mostrar e a tinta não consegue reproduzir, como alguns verdes e azuis muito vivos.

Se o ficheiro seguir em RGB, alguém terá de o converter. Fazê-lo durante o design, a ver o resultado, é muito melhor do que deixar a conversão acontecer às cegas no fim. E convém lembrar que o próprio suporte conta: o mesmo magenta fica diferente num papel brilhante, num papel mate e num cartão de cor natural.

Quando uma cor é a assinatura da marca e tem de ser sempre igual, pode justificar-se uma cor direta: uma tinta preparada para aquela cor específica, em vez de uma mistura das quatro. Não é a resposta para tudo, porque depende da peça, da quantidade e da técnica, mas é uma conversa a ter quando a cor é crítica. Falámos mais disto em porque é que a cor vende.

Imagens: resolução, origem e tamanho real

Uma imagem digital é feita de pontos. No ecrã, poucos pontos chegam; impressa, a mesma imagem precisa de pontos suficientes para o tamanho a que vai ser reproduzida. É a razão pela qual a fotografia que fica ótima no site pode sair sem definição num desdobrável.

Há três situações a que deve estar atento:

  • A imagem tirada da internet. Além de ser pequena demais para imprimir, pode não ter direitos de utilização. Se não foi comprada ou cedida, não deve ir para a máquina.
  • O logótipo em JPEG. Um logótipo deve existir em vetor, um formato que se amplia sem perder qualidade. Um logótipo recortado de um email ou de uma fatura vai notar-se.
  • A ampliação. Esticar uma imagem pequena não lhe acrescenta detalhe. Só a torna maior e mais desfocada.

Nos trabalhos de grande formato a conta é outra, porque uma lona vê-se de longe e um cartão de visita vê-se de perto. A resolução necessária depende da distância de visualização: ajudamos a avaliar e, se for preciso, a preparar os ficheiros para grande formato.

Texto, fontes e acabamentos que mudam o ficheiro

As fontes são ficheiros instalados no computador de quem desenhou. Se o ficheiro chegar a outro computador sem elas, o texto é trocado por outra letra e as linhas mudam de sítio. Por isso as fontes devem seguir incluídas no ficheiro final ou convertidas em contornos. Antes disso, uma última leitura atenta: depois de impressa, uma gralha já não se apaga.

Os acabamentos também têm de estar no ficheiro. Um verniz localizado só brilha onde alguém indicou que deve brilhar, e essa indicação faz-se numa camada separada, com a forma exata da área envernizada. Um cortante, o recorte de uma forma que não é retangular, como uma etiqueta redonda ou uma caixa, precisa do desenho da linha de corte, também à parte. As dobras pedem que se pense em que painel cai cada texto, e a encadernação em quanto da página fica escondido junto à lombada.

Plastificação, verniz localizado, cortantes, dobras e encadernação fazem parte da nossa impressão digital. Se a sua peça vai levar algum deles, diga-o logo no início: muda a forma como o ficheiro é preparado.

Dica do laboratório

Quando a cor é crítica, peça uma prova no material final, e não só a prova digital. Depois veja-a à luz do sítio onde a peça vai viver: a montra, o balcão, o stand. A mesma cor muda debaixo de luz fria, de luz quente ou de luz do dia.

A checklist antes de enviar

É esta a lista que usamos antes de um ficheiro seguir para a máquina. Algumas perguntas só o seu lado consegue responder, como os direitos das imagens ou a revisão do texto, por isso vale a pena percorrê-la antes de o enviar:

  • Formato: o documento tem o tamanho final exato da peça?
  • Sangria: os fundos e as imagens que tocam a borda ultrapassam a linha de corte?
  • Margem de segurança: textos e logótipos estão afastados da borda?
  • Cor: o ficheiro está em CMYK (ou no modo que lhe indicámos), e as cores diretas, se as houver, estão identificadas como tal?
  • Imagens: têm resolução suficiente para o tamanho real, e direitos de utilização?
  • Logótipo: está em vetor?
  • Fontes: estão incluídas ou convertidas em contornos?
  • Texto: foi revisto por alguém que não o escreveu?
  • Acabamentos: verniz, cortantes e dobras estão em camadas próprias e bem identificados?
  • Prova: há prova digital aprovada e, se a cor for crítica, prova física?

Se alguma destas perguntas ficou sem resposta, não faz mal: é para isso que serve a verificação. Envie-nos o ficheiro como está, ou fale connosco antes de começar o design, e preparamos a arte final consigo para que não haja surpresas entre o ecrã e o papel.